“Buscamos culpados e sempre trazemos o sentimento para nós mesmos”

O desaparecimento de Gregório Lopes, de 81 anos, mobiliza familiares e voluntários em Foz do Iguaçu
Pais, filhos, primos, toda a família convivem e frequentam as casas um dos outros nunca pensaram que um dia passariam pela angústia do desaparecimento de um ente querido pela espera de informações. Em abril de 2026, Gregório Lopes, de 81 anos de idade, saiu de casa trajando uma camisa cinza, uma calça jeans e, nos pés, um tênis azul escuro e, até agora, não foi visto mais, ao menos por ninguém conhecido. “Há pouco mais de dez anos, nós temos o laudo de Alzheimer dele. Ele sempre foi um homem muito trabalhador, estudioso e brincalhão”, afirma Lílian Moraes, uma das quatro filhas dele que faz do desaparecimento do pai uma bandeira para viver.
Antes dos sintomas da doença aparecerem, Gregório prezava pela liberdade, era um espírito livre. Além da memória, o Alzheimer também levou o vigor. “Nós não deixávamos ele sair muito, e se saia era sempre acompanhado, sem o freio social ele acabava ficando inconveniente”. Lílian enfatiza que o pai tinha acompanhamento médico e o tratamento auxiliava para regressão mais lenta. “O único problema era realmente a questão da memória, ele esquecia as coisas, ele já estava regredindo para uma adolescência”.
No dia em que Lílian foi levar a mãe para a fisioterapia, o portão ficou com o cadeado sem chave e foi nesse momento em que Gregório saiu. Foram apenas cinco minutos, mas suficientes para sair sem destino. “Quando eu voltei, elemuito esperto, deixou o quarto com a porta semi aberta, já que não tinha tranca e fechou as cortinas. Eu entrei e falei: poxa, o pai está dormindo!”. Gregório tinha problemas para dormir, então Lílian deixou que descansasse, até perceber que o pai não estava lá.
Aquela não foi a primeira vez que ele arriscou sair sem acompanhante. Desde o diagnóstico, há 10 anos, ele ia ao mesmo lugar: o Banco do Brasil,onde trabalhava. Assim foi em três episódios. Em outra ocasião, o destino foi o shopping a três quadras da sua residência. “Eu sei que ele foi no shopping, porque ele ia muito no shopping aqui, perto de casa”, lembra Lílian
Como o idoso não tinha freio social, brigou com um dos guardas. Após isso, a família pediu para que ligassem caso a situação ocorresse novamente. “ Nós deixamos o telefone e se não quisessem ligar, poderiam ligar para a polícia, mas não que deixassem ele na rua”. Os guardas o colocaram para fora e ele seguiu para um caminho que não costumava ir, a BR-277, que vai em direção ao Paraguai.
Os irmãos de Lílian foram até o Paraguai em busca do pai. O irmão, que mora junto a ela, e a outra veio de Salvador também chegou. “Passamos nas prefeituras, hospitais, assistências sociais de todas as cidades no caminho até Assunção, na cidade de Coronel Oviedo. A chefe de assistência social e imprensa falaram que divulgarão a foto do pai nos lares de idosos e abrigos”. Os irmãos passaram por um hospital em Coronel Oviedo que auxiliou na distribuição de cartazes.
Uma das características do Alzheimer é a mente voltar no tempo, e para Gegrório,as buscas se concentram nos locais que ele frequentava na adolescência. “Sabíamos que ele gostava muito de ir à beira de rio para pescar. Ele tinha muitos amigos indígenas. Meu avô era e tinha filhos adotivos que eram indígenas também”. A experiência de viver na cidade que faz tríplice fronteira facilitou o conhecimento de mais duas línguas: o espanhol e o guarani.
As buscas mobilizam a família, amigos e a cidade de Foz do Iguaçu para tornar um reencontro possível. “O povo parou de trabalhar, parou de fazer as coisas que tinham pra fazer. Nós fizemos uma panfletagem na rua mais movimentada de Foz, mas nunca conseguimos pistas”, Lílian explica sobre as mobilizações que também foram feitas nas redes.
Em meio à incerteza e divididos entre a fronteira, a família trabalha com os poucos rastros que tem. “As únicas pistas reais que temos são as câmeras que conseguimos e de um cão farejador”. Uma câmera de segurança flagrou o idoso e, a partir daí, com auxílio do cão farejador Caleb, foi traçado o caminho até um ponto da BR-277, último local onde se tem conhecimento da passagem de Gregório.
Foto: Lilian Moraes
A culpa que ecoa
E se o portão não estivesse aberto? A questão permanece, mas a culpa foi um processo sentido em cada uma das vertentes. “Minha mãe sentia muita culpa no começo, de eu ter que sentar com ela o tempo todo, conversar com ela, muita, muita culpa”. A família, que atuava como cuidadora, sentiu a dor atravessar. Desde sempre Gregório gostava de fazer as coisas sozinho, no seu próprio espaço, em nome da liberdade de transitar. No entanto, a condição mental dele já não permitia. “Eu levei ele a um jogo de futebol e ele queria ir embora logo, porque não estava sozinho”. Na própria solidão, ele encontrava a companhia, não por aversão à família ou amigos, mas por permitir se encontrar nas memórias que ainda restavam e na liberdade que ainda persiste após o laudo.
A mãe de Lílian carregou o sentimento de culpa por muito tempo. “Ela sentiu culpa porque acha que foi ela quem deixou o portão aberto. Não, mãe, fui eu”. Lílian também passou pelo processo necessário para superar a culpa, e encontrou refúgio na espiritualidade. “Você começa a pensar o que eu devia ter feito para ele ter aproveitado mais e não querer fugir, mas é uma pessoa que tem alteração mental, é uma demência, e você não tem o que fazer”.
Pensar outros desfechos a partir de medidas que não foram tomadas faz que a culpa aumente e não apazigua a angústia vivida. Assim foi no caso de Ivanise Esperidião, assim é na questão de Gregório e nos muitos casos de desaparecimentos mundo afora. A culpa inicial ecoa mais alto, ela perdura nos dias mais difíceis e toma conta da cabeça de quem vive a situação. Cada pessoa tem sua forma de organizar os sentimentos, nunca existirá um passo a passo do que fazer, mas diferentes maneiras de suprir um sentimento que permanece.
Hoje, a procura continua, um processo difícil que exige calma e uma batalha interna que se estende dia após dia, no entanto, pessoas chegam para deixar o caso mais leve. O cachorro Caleb acendeu uma ponta de esperança para a família após achar as pistas que podem levar a Gregório.
O faro do encontro
Nos casos de desaparecimento, a principal esperança que resta é a do reencontro. O rastreamento é feito por meio de mobilizações, procuras e outras diversas formas de tentar encontrar alguém, principalmente quando há chance desta pessoa ter cruzado a fronteira para outro país. Não é só uma pessoa que cruza a fronteira, mas o pensamento de toda uma família que fica à espera das notícias, sem dar espaço para a desistência das buscas. O cão farejador Caleb foi um dos alicerces durante as tentativas de encontro de Gregório.
Caleb atuou como peça-chave para traçar caminhos que podem levar ao paradeiro do idoso. Leodair Corassa, bombeiro voluntário de 44 anos, é o tutor de Caleb, um pastor belga malinois. “Desde 2023 resido em Foz do Iguaçu, o Caleb entrou na minha vida em 2020”. Ainda quando morava no Rio Grande do Sul, Leodair se empenhava como voluntário no Corpo de Bombeiros em atividades de acompanhamento de pessoas desaparecidas.
Foto: Lilian Moraes
“Na época, nós não tínhamos nenhum cachorro próximo que fizesse esse trabalho e nem recursos, sempre dependíamos de cachorros que vinham de Porto Alegre”. Foi assim que o bombeiro teve a iniciativa de desenvolver o projeto de treinar cães para realizar esse trabalho. A partir de 2023, Caleb já estava apto para atuar. “Quando me mudei para Foz do Iguaçu, o Caleb ficou, mas não conseguiu se adaptar com nenhum outro condutor, então trouxe ele no ano passado”. Desde então, trabalham em parceria com os bombeiros militares, Polícia Civil e Militar.
Em dezembro de 2025, conseguiram localizar um corpo dentro do rio Paraná, e agora, atuam na busca por Gregório. “Nós tínhamos a última imagem de câmera de segurança de um certo ponto da cidade, depois não havia mais informação nenhuma”, a partir daí foi possível montar um percurso por onde Gregório passou. Caleb é um cachorro com formação em buscas na mata, terreno rural, escombros e também localiza corpos submersos. “Ele é totalmente moldável e se adaptou muito bem à busca urbana, e ainda fazemos alguns trabalhos para a adaptação dele”.
Do treinamento à atuação
O processo do Caleb se inicia aos 55 dias de vida, quando foi feito um trabalho de diferenciação de perfis. “O adestrador consegue identificar se ele tem perfil para faro, ataque, busca de armas, drogas ou explosivos e odor específico, que é o caso do Caleb. Ele foi classificado como farejador com um drive para odores específicos”. Primeiramente, são feitos os trabalhos de obediência e, depois, os trabalhos com cheiro.
“No início foram feitos pequenos percursos, oferecemos um odor para ele, a pessoa se esconde e ele vai encontrar”, sempre que concluía com êxito, o cachorro era premiado com um petisco, carinho e aplausos. Após a evolução do treinamento, o cão trabalha hoje com pistas de 35 a 40 dias, se uma pessoa passar por um local e a equipe entrar daqui um mês, o Caleb ainda consegue localizar o odor.
Leodair explica como as buscas de mata funcionam. “Coletamos uma evidência, uma roupa dessa pessoa, que é oferecida para ele, que cheira e busca, ignorando todos os odores que existem no entorno dele”. No Rio Grande do Sul, Caleb ficou cerca de 15 dias trabalhando em outra modalidade, o de células vivas.
O cão conseguiu fazer a procura em soterramentos a partir do odor emitido por células vivas, com a busca de Caleb localizou um corpo soterrado na região de Roca Sales, juntamente com duas equipes de bombeiros voluntários.
Hoje em dia, Caleb mora na casa de Leodair. “Tem que estar 24 horas com ele, tem que realmente gostar de cachorro, o treinamento te faz entender qualquer mudança de comportamento no animal”, Leodair afirma que Caleb consegue entendê-lo e isso mostra o vínculo e a confiança necessária para a atuação do cão farejador nas buscas.
A atuação de Caleb se conecta com a história de Gregório ao traçar um caminho que traz luz para a família que perdeu alguém para o desaparecimento. Ambas as histórias se unem por uma causa só.
Foto: Lilian Moraes
Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem. Este capítulo trata de desaparecimentos. Leia o capítulo anterior aqui. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.

