Feira do Mel movimenta R$ 28 mil, premia melhor produtor e fortalece a bioeconomia acreana

A primeira edição da Feira do Mel de Rio Branco superou as expectativas dos organizadores ao unir educação ambiental, bioeconomia e geração de renda em um único espaço. Realizado entre os dias 30 de outubro e 2 de novembro, no Horto Florestal, o evento reuniu 26 produtores, mas apenas 10 de mel. Participaram também estudantes, pesquisadores e visitantes de diferentes regiões do Acre, além de representantes do Amazonas e do Peru.
Para Gabriel Ribeiro, da ONG Mãos Que Ajudam e idealizador da iniciativa, o principal objetivo foi alcançado, pois aproximou a população do universo das abelhas nativas sem ferrão e fortaleceu as cadeias produtivas ligadas à bioeconomia.
“A avaliação é extremamente positiva. Mesmo com apenas quatro horas de funcionamento por dia, conseguimos cumprir nossa principal missão, que era divulgar a importância das abelhas nativas sem ferrão para o meio ambiente e para a educação ambiental. Reunimos estudantes, pesquisadores, produtores e a comunidade em uma experiência muito rica, que mostrou como a conservação dessas espécies está diretamente ligada ao desenvolvimento sustentável”, destacou.
Realizada em parceria com a Secretaria de Estado de Agricultura (Seagri), a feira também serviu como vitrine para empreendedores da bioeconomia, oferecendo espaço para comercialização de mel, artesanato, biojoias, doces e produtos da gastronomia regional.
Ao longo dos três dias de evento, a Feira do Mel movimentou R$ 28.267 em vendas, com destaque para a comercialização de mel, que respondeu por R$ 17.488 do total negociado, representando 62% do faturamento registrado.
“Também alcançamos nosso objetivo de criar um ambiente favorável para que quem trabalha com a bioeconomia pudesse expor seus produtos, gerar renda e estabelecer novas conexões. Tivemos produtores de várias regiões do Acre, participantes do Amazonas e até visitantes de Porto Maldonado, no Peru, interessados em conhecer a experiência acreana com as abelhas sem ferrão”, afirmou Gabriel.
Segundo o organizador, a receptividade do público foi um dos principais indicativos do sucesso da iniciativa. A procura pelas atividades e o interesse demonstrado pelos visitantes reforçaram a importância de incluir a temática das abelhas nativas nas discussões sobre conservação ambiental e desenvolvimento econômico.
“A sensação que ficou foi a de quero mais. Muitas pessoas pediram novas edições da feira porque entenderam a importância desse trabalho. É uma forma de conscientizar crianças, jovens e adultos e, ao mesmo tempo, fortalecer a bioeconomia local”, concluiu.
Melhor mel e extensão que transforma
Um dos destaques da programação foi o concurso que premiou o melhor mel de abelhas sem ferrão de Rio Branco. O vencedor foi Nilson Brilhante, dos meliponários Porongaba e Filipinas. O reconhecimento é fruto de um trabalho de extensão desenvolvido há mais de três anos pelo Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre (Ufac), que vem fortalecendo a meliponicultura no estado e gerando resultados concretos para os produtores.
A premiação reforça a importância da pesquisa e da extensão universitária na promoção da bioeconomia e da valorização das abelhas nativas da Amazônia.
O técnico do Parque Zoobotânico (PZ), da Universidade Federal do Acre (Ufac), Nilson Alves Brilhante, explica que o trabalho com abelhas sem ferrão na instituição teve início em 1987 e se consolidou como uma das principais referências do estado em pesquisa, ensino e extensão voltados à meliponicultura.
“O Parque Zoobotânico foi pioneiro no estudo e na criação de abelhas sem ferrão dentro da universidade. Ao longo dos anos, desenvolvemos pesquisas para entender melhor o manejo dessas espécies amazônicas e identificar as técnicas mais adequadas para sua criação”, explica.
Com o passar do tempo, as atividades deixaram de se concentrar apenas na pesquisa científica e passaram a integrar ações de ensino e capacitação junto a comunidades rurais. Atualmente, a equipe atua em localidades da Reserva Extrativista Chico Mendes, como Filipinas, Corumbá e Venezuela, compartilhando técnicas de manejo e incentivando a criação de abelhas nativas como alternativa sustentável de geração de renda.
A participação na 1ª Feira do Mel de Rio Branco representou um marco para o grupo, que destacou a relevância da primeira feira voltada especificamente para a cadeia produtiva do mel. Além de apresentar nosso trabalho, tivemos a oportunidade de comercializar produtos. Os recursos arrecadados serão revertidos para a manutenção do meliponário e para as atividades que desenvolvemos no parque”, destaca.
Atualmente, o meliponário do Parque Zoobotânico trabalha com cerca de cinco espécies de abelhas sem ferrão, incluindo diferentes variedades de uruçu, como a amarela, a cinzenta e a roxa. O objetivo é ampliar gradualmente o número de colônias e fortalecer os programas de pesquisa e conservação.
“Hoje contamos com cerca de 12 a 13 enxames matrizes, mas nossa meta é chegar a 30. Isso vai permitir selecionar as melhores matrizes, realizar multiplicações e promover intercâmbios com outros criadores, fortalecendo a diversidade genética das colônias”, afirma.
Potencial
Brilhante ressalta que a troca de matrizes entre criadores é fundamental para garantir a saúde dos enxames e evitar problemas decorrentes da reprodução contínua de colônias com a mesma origem genética.
O pesquisador observa ainda um crescimento expressivo da meliponicultura no Acre nos últimos anos, impulsionado tanto pela busca por renda quanto pelo interesse em conservação ambiental e educação.
“Cada vez mais pessoas estão descobrindo o potencial das abelhas sem ferrão. Há espaço tanto para quem trabalha com conservação quanto para quem atua na cadeia produtiva. Cada espécie possui características próprias e nichos de mercado específicos, o que amplia as oportunidades para os criadores”, avalia.
Apesar do avanço da atividade, ele alerta para a necessidade de ampliar a oferta de alimento para as colônias, especialmente em áreas urbanas e regiões afetadas pelo desmatamento.
“Fortalecer a meliponicultura não significa apenas produzir mel. Significa também contribuir para a conservação da biodiversidade, para a polinização das plantas e para a recuperação dos ambientes naturais. Por isso, é fundamental aumentar o plantio de espécies floríferas que forneçam néctar e pólen para as abelhas”, conclui.
Uma paixão que virou renda
A paixão pelas abelhas sem ferrão transformou a vida do produtor Leonardo da Silva e o levou a se tornar referência na atividade. Morando atualmente em Manaus (AM), ele iniciou sua trajetória na meliponicultura em 2019, quando teve o primeiro contato com um meliponário durante uma visita a um amigo.
O interesse surgiu ao conhecer espécies como mandaçaia e mandaguari e compreender o potencial econômico e ambiental da criação de abelhas nativas. “Quando vi aquelas caixinhas e entendi o potencial da atividade, me apaixonei pela meliponicultura. Desde então, nunca mais parei. Hoje trabalho exclusivamente com abelhas sem ferrão”, relata.
O trabalho ganhou reconhecimento este ano, quando Leonardo conquistou o prêmio de Melhor Mel de Manaus, resultado que considera um marco em sua trajetória como criador.
“Foi um reconhecimento muito importante para o meu trabalho e um incentivo para continuar investindo na atividade. O concurso trouxe visibilidade e mostrou que estamos no caminho certo”, afirma.
Além da criação de abelhas, Silva administra sua própria empresa e vê na meliponicultura uma atividade economicamente viável e alinhada à conservação ambiental. Em sua propriedade, a maior parte da área é mantida preservada, e os planos para os próximos anos incluem o aumento do reflorestamento, especialmente com espécies floríferas que servem de alimento para as colônias.
“Quanto mais árvores com flores existirem, melhor será para as abelhas e para o meio ambiente. Muitas pessoas ainda pensam apenas em desmatar, mas precisamos entender a importância desses insetos para a produção de alimentos e para a manutenção dos ecossistemas”, destaca.
A importância das feiras, segundo ele, é fortalecer a cadeia produtiva do mel e aproximar os produtores dos consumidores. Participante frequente desses eventos, ele considera os resultados positivos tanto para a divulgação dos produtos quanto para a geração de renda.
“Grande parte das minhas vendas acontece nas feiras. É uma oportunidade de apresentar os produtos, conversar com o público e mostrar a importância da meliponicultura para a economia e para a conservação ambiental”, explica.
Outro aspecto destacado pelo produtor é a troca de experiências entre criadores. Recentemente, ele participou de intercâmbios técnicos em Manaus, onde teve contato com novas técnicas de multiplicação de colônias e manejo de abelhas sem ferrão.
“O compartilhamento de conhecimento é fundamental. Aprendemos novas formas de manejo, melhoramos os processos de criação e fortalecemos toda a atividade. Quando os produtores trocam experiências, todos saem ganhando”, conclui.
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